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    Medicação para TDAH deixa crianças mais ansiosas? O que dizem os ensaios clínicos
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    Medicação para TDAH deixa crianças mais ansiosas? O que dizem os ensaios clínicos

    Pontos-chave
    • •Meta-análise de ensaios clínicos randomizados, publicada em 2022 na European Child & Adolescent Psychiatry, reuniu 14 estudos que compararam metilfenidato ou atomoxetina com placebo em crianças e adolescentes de 5 a 18 anos.
    • •Nas escalas padronizadas de ansiedade, não houve diferença significativa entre medicação e placebo; a tendência, inclusive, foi de ansiedade um pouco menor no grupo medicado.
    • •Nas listas de efeitos colaterais, a ansiedade apareceu em 17% das crianças que tomavam a medicação e em 18% das que tomavam placebo.
    • •Também não houve diferença significativa para sintomas depressivos.
    • •O alerta principal é outro: só 11% dos ensaios elegíveis mediram ansiedade ou depressão, o que limita muito as conclusões.

    Quem já leu a bula de um medicamento para TDAH provavelmente encontrou "ansiedade" e "depressão" entre os efeitos colaterais comuns. Para pais que estão decidindo sobre o tratamento de um filho, essa informação pesa. E pesa ainda mais porque crianças com TDAH já têm, por si só, mais risco de desenvolver ansiedade.

    Mas de onde vem essa informação, e o que acontece quando ela é testada com rigor? Uma meta-análise publicada em 2022 na revista European Child & Adolescent Psychiatry foi atrás dessa resposta nos ensaios clínicos, o tipo de estudo em que parte dos participantes recebe a medicação e parte recebe placebo, sem saber qual dos dois está tomando.

    Como o estudo foi feito?

    Os pesquisadores buscaram, em três grandes bases científicas, todos os ensaios clínicos randomizados com crianças e adolescentes com TDAH que comparassem um medicamento aprovado com placebo por pelo menos duas semanas. Encontraram 127 ensaios elegíveis. Desses, apenas 14 tinham dados de ansiedade ou depressão que pudessem ser analisados.

    Nesses 14 estudos, nove usaram metilfenidato e cinco usaram atomoxetina, por cerca de sete semanas em média. A idade média dos participantes era de 10 anos, e três em cada quatro eram meninos.

    Esse detalhe é importante: em vez de depender apenas de relatos espontâneos, a análise usou dois tipos de medida sistemática. De um lado, escalas validadas de ansiedade e depressão; de outro, listas estruturadas de efeitos colaterais, em que pais ou médicos marcam se o sintoma apareceu. Relatos espontâneos tendem a ser menos confiáveis, porque dependem de alguém notar e lembrar de contar.

    O que encontraram?

    Nas escalas validadas de ansiedade, que somaram 660 participantes em seis estudos, a ansiedade foi um pouco menor no grupo medicado, mas a diferença foi pequena e não alcançou significância estatística. Em outras palavras, não foi possível afirmar que a medicação muda a ansiedade, para mais ou para menos.

    Nas listas de efeitos colaterais, os números foram quase idênticos: 17% das crianças medicadas e 18% das que tomavam placebo tiveram ansiedade registrada como efeito colateral. Para a depressão, a diferença também não foi significativa nas duas formas de medida.

    O dado que mais chama atenção

    O achado mais revelador não está nos efeitos, mas na ausência de dados. De 127 ensaios elegíveis, só 11% informaram ansiedade ou depressão de forma analisável. Dez estudos disseram ter medido esses sintomas, mas não publicaram os resultados. E apenas um dos 14 incluídos foi classificado como de baixo risco de viés.

    O que isso significa na prática?

    O estudo traz uma informação tranquilizadora: nos ensaios clínicos disponíveis, a medicação para TDAH não aumentou a ansiedade nem a depressão de crianças e adolescentes, quando comparada ao placebo. Repare que no grupo placebo a ansiedade também aparece. Parte do que se atribui ao remédio pode ser a própria oscilação dos sintomas, comum nessa fase da vida.

    Isso não significa que nenhuma criança fique mais ansiosa com a medicação. Os estudos duraram poucas semanas, quatro deles excluíram crianças que já tinham ansiedade ou depressão, e a quantidade de dados é pequena. Significa que a informação da bula não é a palavra final, e que a experiência individual precisa ser observada de perto, com conversa e, quando possível, com instrumentos de medida.

    O estudo também expõe um problema da própria pesquisa: durante anos, os ensaios de medicamentos para TDAH em crianças mediram atenção e hiperatividade, mas deixaram de lado a saúde emocional. Para famílias e profissionais, a lição é dupla. Medo não deve paralisar a decisão, e ausência de evidência não é o mesmo que evidência de segurança. Acompanhar o humor e a ansiedade da criança ao longo do tratamento é parte do cuidado, e não um detalhe.

    Bryant A et al. A meta-analytic review of the impact of ADHD medications on anxiety and depression in children and adolescents. Eur Child Adolesc Psychiatry. 2023;32(10):1885-1898.

    Dúvidas Frequentes

    Perguntas sobre o Tema

    Não, segundo os ensaios clínicos disponíveis. Nesta meta-análise de 14 estudos, a ansiedade apareceu como efeito colateral em 17% das crianças medicadas e em 18% das que tomavam placebo. Cada criança, porém, precisa ser acompanhada individualmente.

    Não houve diferença significativa entre medicação e placebo para sintomas depressivos nos ensaios analisados. Como só 11% dos estudos mediram esse desfecho, a evidência ainda é limitada.

    Porque bulas reúnem relatos de efeitos observados durante o uso, inclusive os que também aparecem com placebo. Quando os pesquisadores compararam os grupos de forma controlada, a frequência de ansiedade foi praticamente a mesma.

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