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    Remédio para TDAH piora a ansiedade? O que mostrou o acompanhamento de adultos na vida real
    Saúde Mental em Evidências

    Remédio para TDAH piora a ansiedade? O que mostrou o acompanhamento de adultos na vida real

    Pontos-chave
    • •Estudo de coorte prospectivo publicado na Translational Psychiatry acompanhou 176 adultos com TDAH no Reino Unido e na Espanha, antes e depois de iniciarem a medicação, com questionários no celular e uma pulseira que registrava movimento e sono.
    • •Na fase com medicação, os sintomas de ansiedade caíram em média 4,2 pontos numa escala que vai de 0 a 21; os de depressão caíram 5 pontos.
    • •Também diminuíram os sintomas de TDAH, a irritabilidade, a inquietação física medida pela pulseira e o consumo de álcool; o sono ficou menos interrompido.
    • •Dois sinais pedem acompanhamento: a frequência cardíaca subiu cerca de 5 batimentos por minuto e o horário de dormir foi ficando mais tarde ao longo dos meses.
    • •Não houve grupo de comparação com placebo: parte da melhora pode refletir expectativa, e o desenho mostra associação, não prova de causa.

    "Tenho medo de que o remédio me deixe mais ansioso." Essa é uma das frases mais ouvidas quando se discute tratamento medicamentoso para o TDAH em adultos. O receio faz sentido: estimulantes aceleram o coração, podem tirar o sono e, em algumas pessoas, aumentam a sensação de agitação. Ao mesmo tempo, muitos adultos com TDAH já convivem com ansiedade há anos, e a dúvida sobre o que vai acontecer com ela é legítima.

    O estudo que trago hoje, publicado na revista Translational Psychiatry (online no fim de 2025), olhou para essa pergunta de um jeito diferente. Em vez de medir apenas sintomas de desatenção em consultas pontuais, os pesquisadores acompanharam adultos no dia a dia, antes e depois de começarem o tratamento, registrando ansiedade, humor, sono, movimento e sinais físicos ao mesmo tempo.

    Como o estudo foi feito?

    Os participantes foram recrutados nas filas de espera de serviços especializados em TDAH adulto em Londres e em Barcelona. Isso permitiu algo raro: registrar como cada pessoa estava antes da medicação e comparar com as semanas seguintes, já em tratamento. Entraram na análise 176 adultos, com idade média de 38 anos, 62% mulheres. Em 91% dos casos, a medicação usada foi um estimulante.

    A cada quatro semanas, os participantes respondiam no celular a questionários padronizados de sintomas de TDAH, ansiedade (a escala GAD-7, de 0 a 21 pontos), depressão, irritabilidade, álcool e alimentação, além de medir pressão, frequência cardíaca, peso e cintura. Ao mesmo tempo, usavam continuamente uma pulseira que registrava passos, pausas, pequenos movimentos e sono.

    Esse detalhe é importante: a pulseira fornece dados objetivos, que não dependem da percepção do paciente. Quando o relato e o registro do aparelho apontam na mesma direção, a confiança no achado aumenta.

    O que encontraram?

    Na fase com medicação, os sintomas de TDAH caíram em média 11,7 pontos numa escala de 0 a 54, e continuaram melhorando um pouco a cada mês. O prejuízo nas diferentes áreas da vida também diminuiu.

    O dado que mais interessa aqui é o da ansiedade: queda média de 4,2 pontos na GAD-7. Os sintomas depressivos caíram 5 pontos, e a irritabilidade e a agressividade também diminuíram. Os autores descrevem essas reduções como clinicamente relevantes.

    A pulseira mostrou menos transições bruscas entre repouso e movimento e menos tempo em movimentos pequenos e repetitivos, um retrato objetivo da inquietação. O sono teve, em média, 2,4 despertares a menos por noite. O consumo de álcool caiu e a alimentação melhorou levemente.

    O que pede atenção

    Nem tudo foi melhora. A frequência cardíaca subiu 5,4 batimentos por minuto, e continuou subindo ao longo dos meses. O horário de adormecer e de acordar foi ficando progressivamente mais tarde. O peso caiu de forma gradual, o que é esperado pelo efeito sobre o apetite. A pressão arterial, curiosamente, ficou um pouco mais baixa, mas os autores reforçam que ela precisa ser monitorada durante o tratamento.

    O que isso significa na prática?

    O estudo ajuda a desfazer uma ideia comum: a de que tratar o TDAH com medicação necessariamente aumenta a ansiedade. Neste grupo de adultos, aconteceu o contrário, em média. Uma explicação plausível é que, quando a desorganização, os esquecimentos e a sensação de estar sempre atrasado diminuem, diminui também uma fonte importante de preocupação diária.

    Isso não significa que a medicação seja um tratamento para ansiedade, nem que todo paciente vá ter essa resposta. Médias escondem diferenças individuais, e há pessoas que de fato sentem mais agitação com estimulantes. Significa que o receio não deve, por si só, impedir uma avaliação cuidadosa, e que a ansiedade precisa ser medida antes e durante o tratamento, e não apenas presumida.

    Também é preciso olhar os limites. Não houve grupo placebo, e quem esperava meses na fila pode ter relatado melhora em parte pela expectativa de finalmente ser tratado. A ordem foi sempre a mesma (primeiro sem, depois com medicação), e o acompanhamento analisado cobriu só os primeiros meses.

    Talvez a contribuição mais interessante esteja em outro ponto: mostrar que o tratamento do TDAH mexe com muitas dimensões ao mesmo tempo, do humor ao sono, do coração ao movimento. Olhar só para a atenção é olhar para uma parte pequena do que muda. E acompanhar de perto, inclusive com ferramentas simples do dia a dia, é o que permite ajustar o cuidado a cada pessoa.

    Zhang Y et al. Remote monitoring of wide-ranging real-world changes in adults following ADHD medication initiation. Transl Psychiatry. 2026;16(1):17.

    Dúvidas Frequentes

    Perguntas sobre o Tema

    Não necessariamente. Neste estudo com 176 adultos, os sintomas de ansiedade caíram em média 4,2 pontos (numa escala de 0 a 21) depois do início da medicação. Algumas pessoas podem sentir mais agitação, e por isso a resposta individual precisa ser acompanhada.

    Em parte. Os participantes passaram a acordar menos durante a noite, mas o horário de dormir foi ficando mais tarde ao longo dos meses. Por isso o sono é um ponto a observar no acompanhamento.

    Sim. A frequência cardíaca subiu cerca de 5 batimentos por minuto em média neste estudo, e as diretrizes recomendam acompanhar pressão e frequência cardíaca durante o tratamento.

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