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    Mulheres com TDAH sentem a perimenopausa com mais intensidade?
    Saúde Mental em Evidências

    Mulheres com TDAH sentem a perimenopausa com mais intensidade?

    Pontos-chave
    • •Estudo de coorte populacional feito na Islândia e publicado em 2025 na European Psychiatry avaliou 5.392 mulheres entre 35 e 55 anos
    • •Sintomas perimenopáusicos graves foram relatados por 54% das mulheres com TDAH, contra 30% das mulheres sem o diagnóstico
    • •A diferença apareceu nas três dimensões avaliadas: psicológica, física e urogenital
    • •O maior contraste ocorreu entre 35 e 39 anos, antes da idade em que a perimenopausa costuma ser esperada
    • •Mulheres com TDAH também relataram mais sintomas fora da faixa da perimenopausa, o que pede cautela na interpretação

    Fogachos, insônia, irritabilidade, esquecimentos, a sensação de que a cabeça já não funciona como antes. A perimenopausa, período de transição que antecede a última menstruação, pode trazer um conjunto de sintomas físicos e emocionais que muitas mulheres atravessam sem conseguir nomear. Para quem tem TDAH, essa fase levanta uma pergunta a mais: o que é hormônio, o que é TDAH e o que é a soma dos dois?

    Apesar da relevância, quase não há pesquisas sobre como mulheres com TDAH vivem esse período. Um estudo publicado em 2025 na revista European Psychiatry, conduzido por pesquisadores da Islândia, é, segundo os autores, o primeiro a comparar diretamente os sintomas da perimenopausa em mulheres com e sem o diagnóstico.

    Como o estudo foi feito?

    Os dados vieram da coorte SAGA, um estudo populacional islandês que convidou todas as mulheres de 18 a 69 anos do país a responder questionários sobre saúde física, saúde mental e história de trauma em 2018, com nova avaliação em 2024. Para esta análise, foram incluídas 5.392 mulheres entre 35 e 55 anos, das quais 535 relataram ter diagnóstico de TDAH.

    Os sintomas da perimenopausa foram medidos pela Menopause Rating Scale (MRS), um questionário validado que avalia 11 queixas em três dimensões: psicológica (humor deprimido, irritabilidade, ansiedade e cansaço), somática (fogachos, palpitações, problemas de sono e dores articulares) e urogenital (queixas sexuais, urinárias e secura vaginal). Os sintomas atuais de TDAH foram avaliados pela ASRS, escala de rastreio usada em adultos.

    Esse detalhe é importante: as análises foram ajustadas para idade, escolaridade, situação conjugal, tabagismo e consumo de álcool, e repetidas separando mulheres com e sem histórico de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), condição bem mais frequente entre as participantes com TDAH (42% contra 10%).

    O que encontraram?

    Mulheres com TDAH tiveram pontuação média mais alta de sintomas perimenopáusicos (18 contra 13 pontos) e, sobretudo, mais sintomas graves: 54,2% contra 30,1%, quase o dobro. A diferença apareceu em todas as dimensões: sintomas psicológicos graves em 58,6% contra 36,0%, somáticos em 30,4% contra 13,9% e urogenitais em 43,2% contra 27,5%.

    Os resultados se mantiveram após os ajustes e também entre mulheres sem histórico de TEPT. Quando os pesquisadores consideraram a intensidade atual dos sintomas de TDAH, em vez do diagnóstico, a associação ficou ainda mais forte: 72,8% das mulheres com sintomas graves de TDAH relataram sintomas perimenopáusicos graves, contra 28,9% das demais.

    Outro dado chama atenção: cerca de uma em cada três mulheres com TDAH entre 35 e 44 anos relatou sintomas atuais graves do transtorno, um lembrete de que o TDAH não desaparece com a idade.

    O TDAH antecipa a perimenopausa?

    O achado mais intrigante é a idade. Entre as mulheres com TDAH, os sintomas foram mais intensos já entre 35 e 39 anos; entre as demais, o pico ficou entre 45 e 49 anos. Os autores levantam a hipótese de que a perimenopausa possa começar mais cedo no TDAH, o que conversa com uma análise genética anterior que associou o transtorno a uma menopausa mais precoce.

    Mas há uma nuance que merece destaque. Mulheres com TDAH de 25 a 30 anos, longe da perimenopausa, também pontuaram alto na mesma escala (18 contra 12 pontos). Isso sugere que parte do que a escala capta não é exclusivamente hormonal, e sim uma carga maior de sintomas emocionais e físicos que acompanha o TDAH ao longo da vida. Os próprios autores reconhecem essa limitação.

    O estudo tem outros limites: o diagnóstico de TDAH foi autorrelatado, os sintomas foram medidos em um único momento (o que não permite afirmar causa) e não havia informação sobre uso de medicação para TDAH ou de terapia hormonal.

    O que isso significa na prática?

    Isso não significa que toda mulher com TDAH terá uma perimenopausa difícil, nem que a menopausa vá chegar mais cedo para todas. Significa que, a partir dos 35 anos, mudanças no humor, no sono, na memória e na energia merecem ser olhadas com atenção nessas mulheres, sem serem automaticamente atribuídas ao TDAH, nem apenas aos hormônios.

    A sobreposição é real: dificuldade de concentração, esquecimentos, irritabilidade e cansaço aparecem tanto no TDAH quanto na perimenopausa. Distinguir os dois e, muitas vezes, reconhecer que eles se somam depende de uma avaliação que considere a história da pessoa desde a infância, o momento hormonal e o impacto no dia a dia. Em alguns casos, é justamente nessa fase que um TDAH nunca diagnosticado se torna evidente.

    Durante muito tempo, o TDAH foi pensado como um transtorno de meninos em idade escolar. Estudos como este ajudam a desenhar outro retrato: o de mulheres que convivem com o transtorno ao longo de toda a vida reprodutiva, com necessidades que mudam a cada fase. Ainda faltam pesquisas sobre como o tratamento do TDAH e a terapia hormonal interagem nesse período, mas a pergunta já não pode ficar de fora do cuidado.

    Jakobsdóttir Smári U, Valdimarsdottir UA, Wynchank D, de Jong M, Aspelund T, Hauksdottir A et al. Perimenopausal symptoms in women with and without ADHD: A population-based cohort study. European Psychiatry. 2025;68(1):e133.

    Dúvidas Frequentes

    Perguntas sobre o Tema

    Sim, segundo este estudo. Entre 5.392 mulheres de 35 a 55 anos, sintomas perimenopáusicos graves foram relatados por 54% das que tinham TDAH, contra 30% das que não tinham. A diferença apareceu nos sintomas psicológicos, físicos e urogenitais.

    Ainda não se sabe. No estudo, os sintomas mais intensos apareceram entre 35 e 39 anos nas mulheres com TDAH, o que levou os autores a levantar essa hipótese. Mas mulheres com TDAH mais jovens também pontuaram alto, então são necessários estudos que acompanhem as mesmas mulheres ao longo do tempo.

    Não existe um teste único. Desatenção, esquecimentos, irritabilidade e cansaço aparecem nos dois quadros, que podem coexistir. A diferenciação depende de uma avaliação clínica que considere a história desde a infância, o momento hormonal e o impacto dos sintomas na rotina.

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