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    Funcionar melhor à noite tem relação com o TDAH?
    Saúde Mental em Evidências

    Funcionar melhor à noite tem relação com o TDAH?

    Pontos-chave
    • •Estudo transversal publicado em 2025 na Translational Psychiatry avaliou 428 adultos de 18 a 70 anos no Reino Unido, distribuídos de forma equilibrada entre cinco faixas etárias
    • •Ser vespertino, isto é, ter mais disposição à noite, se associou a mais sintomas em 8 de 11 áreas da saúde mental avaliadas
    • •Os sintomas de TDAH foram a segunda associação mais forte com o perfil vespertino, atrás apenas da dificuldade de regular as emoções
    • •A relação entre ser vespertino e ter sintomas de TDAH se manteve estável ao longo de toda a vida adulta, mesmo considerando o tempo de sono de cada pessoa
    • •Limite importante: o estudo mediu sintomas por questionário em um único momento, sem diagnóstico clínico, e não permite saber o que vem primeiro

    Algumas pessoas acordam dispostas e rendem melhor de manhã. Outras só "ligam" à tarde e encontram a melhor concentração à noite. Essa preferência tem nome, cronotipo, e uma base biológica: é a expressão do relógio interno de cada pessoa.

    Quem tem TDAH costuma se reconhecer no segundo grupo, o de quem funciona melhor à noite. Um estudo publicado em 2025 na Translational Psychiatry ajuda a entender essa relação e mostra que ela não é exclusiva da juventude: acompanha a pessoa ao longo da vida adulta.

    Como o estudo foi feito?

    Os pesquisadores recrutaram 428 adultos por uma plataforma online, com cerca de 80 a 90 participantes em cada faixa etária: 18 a 30, 31 a 40, 41 a 50, 51 a 60 e 61 a 70 anos. O cronotipo foi medido por um questionário validado sobre os horários preferidos para atividades e para dormir.

    Os participantes também responderam a escalas validadas de sintomas de 11 áreas da saúde mental, entre elas TDAH, depressão, ansiedade, autismo, mania e instabilidade emocional. Para o TDAH, foi usada a escala de autorrelato para adultos da Organização Mundial da Saúde, conhecida pela sigla ASRS.

    Esse detalhe é importante: as análises consideraram o tempo habitual de sono de cada pessoa. Assim, a associação encontrada não se explica apenas pelo fato de os vespertinos dormirem menos.

    O que encontraram?

    Ser vespertino se associou a mais sintomas em oito das onze áreas avaliadas. Em ordem de força da associação: dificuldade de regular as emoções, TDAH, depressão, autismo, instabilidade emocional, ansiedade generalizada e ansiedade social. Os sintomas de mania foram a exceção, mais associados ao perfil matutino.

    Quando os pesquisadores usaram os pontos de corte das escalas, o resultado se repetiu. Quanto mais vespertina a pessoa, maior a chance de ter sintomas de TDAH em nível que justifica uma avaliação clínica.

    A idade muda, a relação permanece

    Com o passar dos anos, as pessoas tenderam a ficar mais matutinas, e os sintomas de TDAH ficaram em média mais baixos. Ainda assim, a ligação entre ser vespertino e ter sintomas de TDAH se manteve estável dos 18 aos 70 anos.

    O que isso significa na prática?

    O achado ajuda a desfazer um julgamento comum. Dormir tarde e render melhor à noite não é necessariamente preguiça ou indisciplina. Para muitas pessoas com TDAH, pode refletir um relógio biológico que funciona deslocado em relação aos horários da escola e do trabalho.

    Isso não significa que todo vespertino tem TDAH, nem que ser vespertino cause o transtorno. O estudo mostra uma associação em um único momento. Os próprios autores lembram que ainda não se sabe se o cronotipo é um fator de risco, uma característica paralela ou uma consequência dos sintomas. Significa que o ritmo de cada pessoa merece entrar na conversa clínica.

    Na prática, perguntar sobre horários preferidos, sono nos dias livres e momentos de melhor rendimento ajuda a entender o funcionamento de quem tem TDAH. Em alguns casos, ajustar a rotina ao próprio ritmo, quando possível, pode tornar o dia mais funcional. Em outros, o desencontro entre o relógio interno e as exigências do dia a dia é justamente parte do sofrimento.

    O estudo tem outros limites. A amostra foi de conveniência, recrutada online, com poucas pessoas nos extremos de cronotipo, e todos os dados vieram de questionários respondidos uma única vez. Os autores pedem estudos que acompanhem as mesmas pessoas ao longo do tempo.

    Ainda assim, a mensagem vale para pacientes e famílias: entender o próprio ritmo é parte de entender o TDAH. Às vezes, o problema não está na pessoa, mas no horário em que o mundo espera que ela funcione.

    Axelsson J et al. Associations between chronotype and psychiatric symptoms across the adult lifespan. Transl Psychiatry. 2025;15(1):522.

    Dúvidas Frequentes

    Perguntas sobre o Tema

    Sim, a associação é frequente. Neste estudo com 428 adultos, ser vespertino foi a segunda associação mais forte com os sintomas de TDAH, entre 11 áreas da saúde mental avaliadas.

    Não necessariamente. Muitas pessoas vespertinas não têm TDAH. O cronotipo pode ser uma pista a mais, mas o diagnóstico depende de uma avaliação clínica completa.

    Não muito. Com a idade, as pessoas ficaram mais matutinas e com menos sintomas, mas a relação entre ser vespertino e ter sintomas de TDAH se manteve estável dos 18 aos 70 anos.

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