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    Por que adultos com TDAH sofrem mais com ansiedade? O papel da autocompaixão
    Saúde Mental em Evidências

    Por que adultos com TDAH sofrem mais com ansiedade? O papel da autocompaixão

    Pontos-chave
    • •Estudo transversal publicado em 2022 no Journal of Clinical Psychology comparou 543 adultos com TDAH e 313 adultos sem TDAH, por meio de questionários online.
    • •Os adultos com TDAH tinham mais ansiedade, mais depressão e mais estresse, além de menos bem-estar emocional, psicológico e social.
    • •Eles também tinham níveis bem menores de autocompaixão, a capacidade de se tratar com gentileza diante de falhas e dificuldades.
    • •Na análise estatística, a autocompaixão mais baixa explicou cerca de metade da diferença em ansiedade, depressão e estresse entre os dois grupos.
    • •O estudo avaliou cada pessoa uma única vez e se baseou em autorrelato: mostra uma associação forte, mas não prova que aumentar a autocompaixão reduza a ansiedade.

    Que adultos com TDAH têm mais ansiedade não é novidade. Parte da explicação é biológica, com fatores genéticos e cerebrais em comum. Mas há outra parte, mais silenciosa, que se constrói ao longo da vida: anos de prazos perdidos, broncas, comparações e a sensação de nunca estar à altura do que se espera.

    O que acontece com a forma como a pessoa passa a se tratar depois de tudo isso? Um estudo publicado em 2022 no Journal of Clinical Psychology investigou exatamente esse ponto, olhando para um conceito que a psicologia estuda há algumas décadas: a autocompaixão.

    Como o estudo foi feito?

    Participaram 856 adultos recrutados principalmente no Reino Unido, por redes sociais, fóruns, serviços universitários e grupos de apoio. Do total, 543 relataram diagnóstico de TDAH e 313 não tinham o transtorno. Cerca de dois terços eram mulheres, com idade média de 34 anos.

    Esse detalhe é importante: os pesquisadores não confiaram apenas no relato de diagnóstico. Aplicaram também uma escala de triagem de TDAH e excluíram quem tinha resultado incompatível com o grupo, inclusive pessoas sem diagnóstico, mas com muitos sintomas. Assim, os dois grupos ficaram bem definidos.

    Todos responderam a questionários de autocompaixão, ansiedade, depressão, estresse e bem-estar. A autocompaixão foi medida em três dimensões: gentileza consigo mesmo em vez de autocrítica; perceber que todo mundo erra, em vez de se sentir isolado no fracasso; e observar as emoções difíceis sem ser engolido por elas. Uma técnica estatística chamada modelagem de equações estruturais testou quanto da diferença de saúde mental entre os grupos passava pela autocompaixão.

    O que encontraram?

    Os adultos com TDAH tinham mais ansiedade, mais depressão e mais estresse percebido, e menos bem-estar em todas as dimensões avaliadas. Na escala de ansiedade, que vai de 0 a 21, a média foi de 12,7 no grupo com TDAH e de 8,6 no grupo sem TDAH.

    A autocompaixão também foi bem menor no grupo com TDAH. Quanto mais sintomas de TDAH, menor a autocompaixão, e quanto menor a autocompaixão, maiores a ansiedade e o estresse.

    O achado central está na análise de mediação: a autocompaixão mais baixa respondeu por cerca de metade da diferença em ansiedade, depressão e estresse entre os grupos, e por uma parte ainda maior da diferença em bem-estar. Isso levou em conta o sexo e a presença de outros diagnósticos, como depressão.

    O que isso significa na prática?

    O estudo sugere que a ansiedade no TDAH não se explica apenas pelos sintomas em si. Ela também passa pela forma como a pessoa reage aos próprios tropeços. Quem cresceu ouvindo que era desatento, preguiçoso ou desorganizado tende a transformar cada esquecimento numa prova de inadequação. A autocrítica constante alimenta a preocupação, e a preocupação, por sua vez, consome a atenção que já é escassa.

    Isso não significa que a ansiedade seja culpa da pessoa, nem que basta "pensar positivo". Autocompaixão não é autoindulgência, nem desistir de melhorar. É reconhecer a dificuldade com o mesmo cuidado que se ofereceria a alguém querido, e é uma habilidade que pode ser desenvolvida, por exemplo em terapias baseadas em compaixão e em mindfulness.

    Os limites precisam ser ditos. O estudo avaliou cada pessoa uma única vez, por questionários online, e não acompanhou ninguém ao longo do tempo. Não dá para afirmar que a baixa autocompaixão vem antes da ansiedade, nem que treiná-la reduzirá os sintomas. Os próprios autores pedem estudos de intervenção para testar isso.

    Ainda assim, o achado amplia o olhar sobre o cuidado. Tratar o TDAH envolve atenção, organização e rotina, mas também a relação que a pessoa construiu consigo mesma depois de tantos anos de esforço pouco reconhecido. Às vezes, uma parte importante da ansiedade mora justamente aí.

    Beaton DM et al. The role of self-compassion in the mental health of adults with ADHD. J Clin Psychol. 2022;78(12):2497-2512.

    Dúvidas Frequentes

    Perguntas sobre o Tema

    É a capacidade de se tratar com gentileza diante de falhas e dificuldades, reconhecendo que errar faz parte da experiência humana e observando as emoções difíceis sem ser dominado por elas. Não é o mesmo que autoindulgência.

    Em parte, porque costumam acumular experiências de falha, crítica e rejeição ao longo da vida. Neste estudo com 856 adultos, quem tinha TDAH apresentou níveis bem menores de autocompaixão do que quem não tinha.

    Ainda não se sabe com certeza. Neste estudo, a baixa autocompaixão explicou cerca de metade da diferença de ansiedade, depressão e estresse entre adultos com e sem TDAH, mas faltam estudos de intervenção que testem esse efeito diretamente.

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