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    Vieses Implícitos na Saúde: quando o problema está em nós, profissionais
    Saúde Mental em Evidências

    Vieses Implícitos na Saúde: quando o problema está em nós, profissionais

    Pontos-chave
    • •O viés implícito é inconsciente — profissionais de saúde o carregam sem saber
    • •Ele afeta diagnóstico, vínculo terapêutico e adesão ao tratamento
    • •Grupos mais afetados: pacientes negros, latinos, mulheres e idosos
    • •Ferramentas como o IAT (Harvard) ajudam a identificar esses vieses
    • •Treinamento pontual não muda comportamento — é necessária prática contínua

    Existe uma frase do escritor canadense Robertson Davies que abre o artigo que vou comentar hoje, e que me parece impossível ignorar: "O olho vê apenas o que a mente está preparada para compreender."

    Essa frase captura, com beleza literária, algo que a ciência vem confirmando há décadas — e que nós, profissionais de saúde, precisamos ter coragem de encarar: nossos preconceitos inconscientes afetam o cuidado que oferecemos.

    O paradoxo do país mais caro e mais doente

    O artigo que trago hoje foi publicado em 2025 no International Journal for Equity in Health, por Crystal Campbell, enfermeira anestesista e professora da Universidade da Califórnia. Embora o foco seja o sistema norte-americano, as reflexões atravessam fronteiras.

    Os EUA gastam mais com saúde do que qualquer outro país do mundo e, ainda assim, têm uma das menores expectativas de vida entre as nações ricas. Parte da resposta para esse paradoxo está em algo que raramente aparece nos relatórios: o preconceito silencioso que opera dentro dos consultórios e hospitais.

    O que é viés implícito?

    Diferente do preconceito explícito, o viés implícito é inconsciente. A pessoa não sabe que o tem e, frequentemente, acredita sinceramente que não o tem.

    Neurologicamente, esse processo envolve a amígdala — estrutura cerebral responsável pelo processamento emocional. Antes mesmo de termos consciência do que estamos vendo, o cérebro já categorizou a pessoa à nossa frente por raça, gênero, idade, peso, classe social, associando a ela expectativas moldadas pela cultura e pela história. Não é maldade. É biologia. Mas as consequências podem ser graves.

    Quem sofre mais?

    O artigo mapeia os grupos mais afetados. Pacientes negros, latinos e asiáticos relatam discriminação com muito mais frequência. Mulheres têm suas queixas sistematicamente subestimadas. Idosos recebem menos indicações de tratamento, como se a vida deles valesse menos.

    Falo como médica quando destaco um dado especialmente perturbador: profissionais que trabalham com saúde mental demonstraram, em pesquisas, crenças implícitas de que pessoas com transtornos mentais são perigosas ou sem capacidade de recuperação. Isso afeta o vínculo terapêutico, a adesão ao tratamento e, em última instância, o prognóstico.

    O viés aparece no corpo — e o paciente percebe

    Não se trata apenas de errar um diagnóstico. O viés aparece no desvio do olhar, na postura fechada, no tom de voz menos acolhedor, nas interrupções, nos comentários aparentemente inocentes. Os pacientes percebem, mesmo sem nomear. E quando sentem que estão sendo julgados, perdem confiança, deixam de voltar, não aderem ao tratamento.

    O artigo cita um estudo revelador: pacientes idosos negros e latinos que perceberam discriminação no sistema de saúde tiveram maior probabilidade de desenvolver demência anos depois. O estresse crônico da exclusão tem um preço fisiológico real — inflamação sistêmica e maior vulnerabilidade a doenças graves.

    O que podemos fazer?

    O artigo apresenta estratégias baseadas em evidências. O Teste de Associação Implícita (IAT), desenvolvido por Harvard e disponível gratuitamente online, é capaz de revelar vieses que negamos conscientemente. É desconfortável. É necessário.

    Outras práticas com resultados documentados incluem o exercício deliberado de se colocar no lugar do paciente, a aproximação a realidades diferentes das nossas na formação clínica, e práticas contemplativas como meditação e yoga — que reduzem o impacto do viés em contextos de alta pressão.

    O artigo é categórico em um ponto: treinamento pontual não muda comportamento. Transformação real exige prática repetida, reflexão contínua e aplicação clínica concreta.

    Uma nota sobre humildade

    A psicanálise nos ensina que o não sabido governa. Ter uma postura de estranhamento diante de si mesmo já é um movimento ético fundamental. Não se trata de culpa. Trata-se de responsabilidade.

    Nenhum de nós escolheu os vieses que carrega. Mas todos nós podemos escolher o que fazer quando os encontramos.

    Campbell CN. Healthcare inequities and healthcare providers: we are part of the problem. International Journal for Equity in Health. 2025;24:97.

    Dúvidas Frequentes

    Perguntas sobre o Tema

    É um preconceito inconsciente que profissionais de saúde carregam e que pode afetar decisões clínicas, o vínculo com o paciente e os resultados do tratamento — sem que o profissional perceba.

    Pesquisas mostram que profissionais de saúde mental podem ter crenças implícitas de que pessoas com transtornos mentais são perigosas ou sem capacidade de recuperação, o que prejudica o vínculo terapêutico e a adesão ao tratamento.

    O Teste de Associação Implícita (IAT) de Harvard é uma ferramenta gratuita e validada. Além disso, práticas contemplativas, exposição a contextos diversos e reflexão clínica contínua demonstraram resultados.

    Acompanhamento Psiquiátrico

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